Algumas reflexões sobre a Carta de "7 Ts. 6 F." [2]

Se vocês mesmos não são enérgicos e alertas, ninguém os ajudará de forma alguma. É altamente irrazoável lamentar, "dêem-nos isto ou aquilo, entreguem um coisa ou outra", quando vocês mesmos deveriam fazer a obtenção e a entrega.

Algumas reflexões sobre a Carta de "7 Ts. 6 F." [2]
Estudantes com livros em Ierevan, na Armênia soviética, 1959. Reprodução/Foto: Vsevolod Tarassévitch/МАММ/МDF.

Por V. I. Lênin. - Tradução por Diego Vieira 

Escrito em 1903, publicado pela primeira vez em 1924. Fonte: Lenin: Some Reflections on the Letter from '7 Ts. 6 F.'

Estou escrevendo com sua carta fresca na memória, que acabei de ler. Sua tagarelice sem sentido é tão exasperante que sou incapaz de suprimir o desejo de declarar minha opinião francamente. Por favor, envie minha carta ao autor e diga a ele que não precisa se ofender com o tom severo. Afinal, ela não é destinada à publicação.

A carta merece uma resposta, em minha opinião, porque mostra, de forma particularmente nítida, um traço característico no ânimo de muitos revolucionários atuais: esperar por instruções; exigir tudo de cima, dos outros, de fora; parecer perdido quando confrontado com fracassos causados pela inatividade local; empilhar reclamação após reclamação, e inventar receitas para uma cura barata e simples do mal.

Vocês não inventarão nada, cavalheiros! Se vocês mesmos são inativos, se permitem que cisões ocorram debaixo de seus próprios narizes e então soltam suspiros e fazem reclamações — nenhuma receita ajudará vocês. E é completamente absurdo nos encher de reclamações sobre este ponto. Não imaginem que nos ofendem com suas acusações e ataques: vejam, nós nos tornamos acostumados, tão diabolicamente acostumados a eles que não nos provocam!

Literatura "de massas" "em toneladas" — este grito de guerra de vocês não é nada além de uma receita imaginária para que outra pessoa os cure de sua própria inatividade. Acreditem em mim, nenhuma dessas receitas jamais funcionará! Se vocês mesmos não são enérgicos e alertas, ninguém os ajudará de forma alguma. É altamente irrazoável lamentar, "dêem-nos isto ou aquilo, entreguem um coisa ou outra", quando vocês mesmos deveriam fazer a obtenção e a entrega. É inútil escrever sobre isso para nós, pois não podemos fazê-lo daqui, enquanto vocês podem e deveriam fazê-lo por si mesmos: estou me referindo à entrega da literatura que estamos publicando e temos em mãos.

Alguns "ativistas" locais (assim chamados porque são inativos), que não viram mais do que algumas edições do Iskra e que não trabalham ativamente para obtê-lo e distribuí-lo em quantidades massivas, inventam a desculpa esfarrapada: "Isso não é o que queremos. Deem-nos literatura de massas, para as massas! Mastiguem-na para nós, coloquem-na em nossas bocas, e quem sabe nós mesmos consigamos dar conta de engolir."

Quão fenomenalmente absurdas essas queixas parecem para aqueles que sabem e veem que eles, estes "ativistas" locais, são incapazes de organizar a distribuição até mesmo do que está disponível. Não é ridículo ler: deem-nos toneladas, quando vocês são incapazes de pegar e transportar até mesmo alguns quilos? Façam isso primeiro, dignos "sonhadores de uma hora" (pois o primeiro infortúnio faz vocês abandonarem tudo, até mesmo todas as suas convicções!). Façam isso, e então, quando tiverem feito não uma vez, mas dezenas de vezes, a publicação, também, crescerá com a demanda.

Eu digo que crescerá, pois suas queixas sobre literatura de massas (que vocês copiaram acriticamente e sem sentido dos Socialistas-Revolucionários, do pessoal do Svoboda, e de todos os tipos de "inativistas" confusos) são causadas pelo esquecimento de uma pequena... uma ninharia muito pequena, a saber, o esquecimento do fato de que vocês são incapazes de pegar e distribuir nem mesmo a centésima parte da literatura de massas que estamos publicando agora. Eu tomarei uma das listas recentes de uma das nossas poucas (miseravelmente, lamentavelmente, vergonhosamente poucas) consignações. Os discursos de Nizhni-Novgorod, a luta de Rostov, o livreto sobre greves, o livreto de Dikstein [1] [3] – eu me limitarei a estes. Quatro, apenas quatro pequenos itens! Tão pouco!!

Sim, é muito pouco! Sim, nós precisamos de quatrocentos, não quatro.

Mas, permitam-me perguntar a vocês, vocês foram capazes de distribuir ao menos estas quatro coisas às dezenas de milhares? Não, vocês não foram capazes de fazer isto. Vocês não foram capazes de distribuí-las nem mesmo às centenas. É por isso que gritam: deem-nos toneladas! (Ninguém jamais lhes dará nada se vocês são incapazes de receber: tenham isso em mente.)

Vocês foram capazes de fazer uso das centenas de cópias que lhes foram entregues, trazidas a vocês, e colocadas em suas bocas?? Não, vocês não foram capazes de fazer isso. Mesmo nesta ninharia vocês não foram capazes de conectar as massas com a Social-Democracia. Todo mês nós recebemos dezenas e centenas de panfletos, relatórios, notícias e cartas de todas as partes da Rússia, mas nós não tivemos nem um único (pensem bem no significado exato das palavras, "nem um único"!) relatório sobre a distribuição destas centenas de cópias entre as massas, sobre a impressão que causaram nas massas, sobre a reação das massas, sobre as discussões entre as massas sobre estas coisas! Vocês estão nos colocando em uma posição na qual o escritor faz a escrita e o leitor (o intelectual) faz a leitura — após a qual este mesmo leitor preguiçoso fulmina contra o escritor porque ele (o escritor!!!) não fornece literatura "em toneladas" por toda parte. A pessoa cuja única tarefa é conectar o escritor com as massas senta-se como um peru eriçado e gruguleja sem parar: deem-nos literatura de massas, enquanto ao mesmo tempo ele é incapaz de fazer uso até mesmo de uma centésima parte do que está disponível.

Vocês, é claro, dirão que é impossível, impossível em geral, conseguir, por exemplo, que o Iskra, nosso produto principal, seja conectado com as massas. Eu sei que vocês dirão isso. Eu ouvi isso centenas de vezes e sempre respondi que isso não é verdade, que é um subterfúgio, esquiva, inabilidade e indolência, o desejo de que o frango assado voe direto para suas bocas.

Eu sei pelos fatos que pessoas desenroladas foram capazes de "conectar" o Iskra (este Iskra super intelectual, como os lamentáveis pequenos intelectuais o consideram) com as massas até mesmo de trabalhadores tão atrasados e sem instrução como aqueles nas gubérnias industriais ao redor de Moscou. Eu conheci trabalhadores que eles mesmos distribuíram o Iskra entre as massas (lá) e que meramente pontuaram que havia cópias de menos. Muito recentemente ouvi um "soldado do campo de batalha" contar como em uma daquelas remotas áreas fabris na Rússia central o Iskra é lido ao mesmo tempo em numerosos círculos, em encontros de dez a quinze pessoas, com o comitê e os subcomitês eles mesmos lendo cada edição antecipadamente, planejando conjuntamente exatamente como usar cada artigo em conversas de agitação. E eles foram capazes de fazer uso até mesmo daquelas pífias cinco a oito (máximo: oito!!) cópias que eram tudo o que conseguiam devido à inatividade impotente dos ativistas estacionados perto da fronteira (que nunca são capazes nem mesmo de fazer arranjos para a recepção de consignações de literatura e esperam que o escritor dê à luz a não apenas artigos, mas a pessoas para fazer o trabalho por eles!).

Vamos lá, digam-nos com a mão sobre o peito: muitos de vocês fizeram tal uso de cada cópia do Iskra que receberam (entregue a vocês, trazida a vocês)? Vocês estão em silêncio! Pois bem, deixem-me dizer-lhes: uma a cada cem cópias que chegam à Rússia (pela vontade dos destinos e devido à inatividade dos "leitores") está sendo usada desta forma, com discussões sobre o valor de agitação de cada item, com leituras de cada item nos círculos de estudo dos trabalhadores, em todos os círculos de todos os trabalhadores que estão acostumados a se reunir em uma cidade em particular. E, no entanto, pessoas que são incapazes de assimilar até mesmo uma centésima parte do material que chega a elas lamentam: deem-nos em toneladas!! A fórmula de Shchedrin (o escritor faz a escrita) ainda encara o "leitor" de forma muito, muito otimista!!

O leitor atual (dentre os intelectuais Social-Democratas) chegou ao ponto de reclamar dos escritores porque os intelectuais locais são preguiçosos e "dão ordens" aos trabalhadores, sem fazer nada por eles. A reclamação é justificada, mil vezes justificada, só que... ela é direcionada ao lugar certo? Vocês não nos permitiriam devolver esta reclamação ao remetente, com uma acusação dupla como punição?? E quanto a vocês mesmos, meus dignos reclamantes? Se os seus amigos são incapazes de fazer uso do Iskra para leituras nos círculos de estudo dos trabalhadores, se eles são incapazes de designar pessoas para a entrega e distribuição de literatura, se eles são incapazes de auxiliar os trabalhadores a estabelecer círculos para este propósito, por que vocês não jogam tais amigos impotentes ao mar?? Apenas pensem, em que tipo de bela situação vocês se encontram quando reclamam conosco sobre a sua própria impotência?

É um fato que os "práticos" não fazem uso de sequer uma centésima parte de tudo que poderiam pegar. E é um fato não menos indubitável que as variedades especiais de literatura "de massas" que estas pessoas inventaram são apenas pretextos e esquivas. Na carta de "7 Ts. 6 F.", por exemplo, três variedades são recomendadas a "nós" (teria de ser a nós, é claro):

1) Um jornal popular. Mastiguem cada fato a fim de tornar a sua assimilação possível sem digestão, para que nós, "ativistas", não precisemos de estômagos em absoluto.

Não importa que o mundo ainda não tenha visto tal "jornal" "popular", já que um jornal dá respostas para tudo, enquanto a literatura popular dá instrução sobre poucas coisas. Não importa que todos os nossos exemplos de tal literatura, começando com Rabochaya Mysl, passando pelos Vperiods [4], Rabocheye Dielos, Krasnoye Znamias [5], e similares, tenham inevitavelmente e necessariamente se provado vira-latas, não sendo nem populares nem jornais. Não importa que todos os esforços dos jornais "dos trabalhadores" tenham meramente nutrido, e sempre nutrirão, a divisão absurda em um movimento intelectual e um movimento da classe trabalhadora (uma divisão causada pela estupidez e trapalhada dos intelectuais, que chegam ao ponto de enviar reclamações sobre sua própria trapalhada da origem do problema até os confins da terra!). Não importa que todos os esforços dos jornais "dos trabalhadores" até agora tenham gerado, e sempre gerarão entre nós, amadorismo e especiais, profundas, teorias de Kazan e Kharkov. Tudo isto não importa. Olhem para o cativante grupo Svoboda e para os cativantes (“de tirar o fôlego”) Socialistas-Revolucionários; que massa (ugh, que massa!) de jornais e periódicos populares eles estão publicando!! Narodnoye Dyelo, Krasnoye Znamya, Svoboda — uma revista para trabalhadores, Otkliki — um jornal e revista para trabalhadores, Luchina — para camponeses, Rabochaya Mysl — o jornal de Genebra dos trabalhadores de São Petersburgo!! Não importa que tudo isto seja lixo, mas é lixo massivo apesar de tudo.

E tudo que vocês têm é apenas um Iskra; afinal, fica monótono! Trinta e uma edições e tudo Iskra, enquanto com as pessoas cativantes cada duas edições de um título (de lixo) são imediatamente seguidas por três edições de outro título (de lixo). Ora, isto é energia, isto é alegre, isto é novo! Mas os nossos Social-Democratas....

2) E "eles" estão sempre tendo livretos novos. Cada reimpressão é considerada um livreto e tudo isto é alardeado de forma meretrícia, e as folhas impressas são somadas (um milhão de folhas impressas: vejam o Nº 16 da Revolutsionnaya Rossiya. Eles quebraram todos os recordes! Campeões!).

Mas no nosso caso! Reimpressões não são contadas como livretos — isso é intelectualismo, academicismo!! Os antigos livretos de Dikstein estão sendo republicados, quando cada garota em Paris e em Chernigov sabe que dez livretos novos (lixo) valem cem vezes mais do que um livreto velho, mesmo um bom.

São apenas os alemães que fazem as coisas de tal modo que, por exemplo, em 1903, o Nossos Objetivos de Bebel, escrito trinta e quatro anos atrás, está sendo republicado pela décima primeira vez!! Isso é tão chato. Nossos "cativantes" Socialistas-Revolucionários estão derramando material. Mas os nossos "ativistas" locais não são capazes de usar nem os velhos livretos de Plekhanov (vinte anos de idade: material antigo! Aos arquivos com eles!), nem "qualquer" um (um!) livreto sobre greves [6] e sobre o memorando de Witte!

Isto para não mencionar o fato de que o "ativista" local não levanta um dedo para espremer bons livretos dos autores agora no exílio — e para conseguir que escritores locais contribuam para o "Iskra". Por que fazer isso? É muito mais fácil reclamar do que empreender um negócio tão problemático! E o leitor de hoje descaradamente chama a si mesmo de um iskrísta com base no fato de que escreve reclamações ao Iskra. Nem tampouco perturba minimamente a sua consciência que 90 por cento dos artigos sejam escritos pelos mesmos três e meio escritores. Nem acha ele necessário sequer pensar sobre o fato de que o Iskra não deve ser permitido parar sua publicação e que a edição quinzenal de um e meio a dois cadernos impressos exige muito trabalho. Ainda assim, ele continua a gritar com uma fatuidade simplesmente sem paralelos: trinta e uma edições, e ainda há muitos tolos nas localidades e muitas lamentações impotentes!! Um argumento verdadeiramente esmagador.... Só que a quem e o que ele esmaga?

3) Panfletos.

Dêem-nos panfletos! Os comitês não podem fazê-lo!! Escrevam, entreguem, tragam (e distribuam?) panfletos!

Bem, ora, isto é de fato consistente. Eu abro a minha boca e vocês enfiam lá dentro: aqui temos a nova fórmula para as relações entre o "escritor" e o prático do Iskra! Chegar ao ponto de afirmar que as organizações locais (consistindo de "ativistas" preguiçosos?) não conseguem dar conta de emitir panfletos locais, que estes panfletos deveriam ser entregues do exterior, este é o limite. Este é um toque de coroamento tão esplêndido (na minha opinião) para toda a carta de "7 Ts. 6 F." que só me resta concluir com esta "coroa". Quaisquer observações ou comentários adicionais apenas ofuscarão o seu brilho resplandecente.


Notas

[1] "Isso é coisa velha!" vocês lamentam. Sim. Todos os partidos que têm boa literatura popular vêm distribuindo coisa velha: Guesde e Lafargue, Bebel, Bracke, Liebknecht, etc., por décadas. Vocês ouviram: por décadas! E a única literatura popular que é boa, a única literatura popular que é adequada é aquela que pode servir por décadas. Pois a literatura popular é uma série de livros didáticos para o povo, e os livros didáticos ensinam o ABC, que permanece inalterado por cinquenta anos de cada vez. A literatura "popular" que os "cativa" e que o grupo Svoboda e os Socialistas-Revolucionários publicam em toneladas todo mês é papel descartável e charlatanismo. Charlatões sempre se agitam e fazem o maior barulho, e algumas pessoas ingênuas confundem isso com energia. — Lênin

[2] 7 Ts. 6. F. — pseudônimo do bolchevique F. V. Lengnik.

[3] Os discursos de Nizhni-Novgorod — a referência é aos discursos feitos pelos trabalhadores revolucionários de Nizhni-Novgorod durante seu julgamento por participação em manifestações. Estes discursos foram publicados no Iskra e então como um livreto. 

A luta de Rostov — a referência é ao livreto A Luta dos Trabalhadores de Rostov, publicado pelo Iskra

O livreto sobre greves refere-se ao livreto A Autocracia e as Greves, publicado em Genebra pela Liga da Social-Democracia Revolucionária Russa. 

O livreto de Dikstein — este se refere a um livreto marxista popular, Como Vive o Povo, de Dikstein.

[4] Vperyod (Avante) — um jornal da tendência "economista", publicado em Kiev entre 1896 e 1900.

[5] Krasnoye Znamya (Bandeira Vermelha) — órgão dos "economistas", foi publicado pela União dos Social-Democratas Russos no Exterior de novembro de 1902 a janeiro de 1903 para tomar o lugar do Rabocheye Dyelo. Três números foram emitidos.

[6] Lênin está se referindo ao livreto A Autocracia e as Greves.