Boletim sobre as greves estudantis no estado de São Paulo - Nº2

A greve unificada dos estudantes das Universidades Estaduais se expande e atinge novos cursos. Reitores fogem da negociação e se negam a dialogar.

Boletim sobre as greves estudantis no estado de São Paulo - Nº2
Manifestação dos estudantes da USP no dia 13/05. Foto: Jornal O Futuro.

Após o ato realizado no dia 11/05 frente à mesa de negociação com o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais de São Paulo (CRUESP) a greve unificada dos estudantes segue em um processo de qualificação política de suas reivindicações, ao mesmo tempo em que se expande, alcançando as bases de novos cursos.

O ato que tinha como objetivo pressionar a mesa de negociação tomou outro propósito quando a menos de 2 horas da reunião, a presidente do CRUESP e Reitora da Unesp, Maysa Furlan, anunciou que a mesa de negociação teria sido cancelada. A justificativa oficial seria a de que não haveria mais mesas de negociação enquanto houvesse manifestações. Dessa forma, em denúncia à fuga por parte dos Reitores, os mais de 2.000 manifestantes, incluindo estudantes, professores e funcionários da USP, Unesp e Unicamp caminharam em direção à Faculdade de Medicina da USP, em um ato que reafirmou a necessidade das reivindicações unificadas frente ao CRUESP, ao mesmo tempo em que denunciava o fechamento da mesa de negociação, e a violência policial durante a desocupação ilegal do prédio da Reioria da USP

Ainda, durante a manifestação, os vereadores de São Paulo, Rubinho Nunes (UNIÃO) e Adrilles Jorge (UNIÃO) avançaram contra os manifestantes, causando uma confusão que teve seu fim quando a Polícia Militar interveio em defesa dos vereadores de direita, lançando gás lacrimogêneo contra os estudantes.

O descontentamento dos estudantes com a postura das Reitorias se torna tônica central para que mais cursos deflagrem greve, principalmente na Unesp e Unicamp onde a greve se encontra em plena expansão. Enquanto a negação ao diálogo se torna a prática cotidiana das Reitorias, os estudantes entendem cada dia mais que apenas com a mobilização e a luta unificada será possível arrancar qualquer avanço.

USP

Os estudantes da USP pararam a Avenida Paulista nesta quarta-feira (13/05) no ato “Lutar não é crime”, em resposta direta à ação ilegal e truculenta da Tropa de Choque Polícia Militar na desocupação da Reitoria durante a madrugada do último domingo (10/05), dia das mães. Estudantes de toda a USP reivindicam não só o direito de lutar por uma universidade popular, mas também as principais bandeiras de luta até agora: o aumento do PAPFE, a não perseguição dos alunos atuantes na greve e a abertura de uma nova mesa de negociação com a reitoria. Com essa mobilização, os estudantes demonstram que não haverá recuo mesmo diante da repressão policial. O movimento estudantil não se acovardou e segue de cabeça erguida na luta contra a política liberal no ensino superior, sendo ela a verdadeira razão da precarização dos Restaurantes Universitários (RUs), da recusa em expandir a moradia estudantil e aumentar o PAPFE.

Durante a desocupação, objetos como celulares, notebooks, tablets e documentos foram apreendidos de maneira ilegal pela PM na invasão da ocupação, e seguem apreendidos na 93ª delegacia de polícia. Desde a desocupação, o DCE Livre da USP está em diálogo com a Reitoria e com a Polícia Militar através de seus advogados para recuperar os pertences que foram detidos na Ocupação Rafael Gomes. O corpo jurídico da entidade segue trabalhando para garantir a liberação dos itens o mais rápido possível, qualquer atualização neste processo será informada pelo DCE. Os demais pertences estiveram em posse da Reitoria e da Polícia, que em clara intenção de perseguir os estudantes, desejava liberá-los apenas mediante assinatura de termo de retirada. Após intensa luta da entidade, foi acordado que os estudantes poderiam realizar a retirada sem intermédio do DCE no dia 14/05 assinando o termo, ou retirar seus bens anonimamente no dia 15/05, bem como ir até o DCE posteriormente. Este processo deixou ainda mais claro de que lado estão a Reitoria, a Polícia Militar e o governador Tarcísio de Freitas, inimigos históricos da classe trabalhadora.

USP SÃO CARLOS: No dia 11/05, concomitantemente ao ato unificado das estaduais, houve uma terceira assembleia em São Carlos que pautava a continuidade da greve. O centro acadêmico (CAASO) juntamente com o Comando de Greve (Cdg) pautaram a continuidade da greve, considerando principalmente a não realização da prometida terceira mesa de negociação, seguida da repressão policial contra os estudantes que ocupavam o prédio da reitoria. A continuidade da greve foi acatada pela assembleia e boa parte das falas demonstraram indignação com a postura autoritária que a reitoria decidiu tomar. Portanto, a greve no campus está prevista para permanecer até o dia 14/05, data que ocorrerá a próxima assembleia.

UNESP

Desde a semana anterior, diversos campis da Unesp vêm se reunindo em assembleias expressivas para a adesão à greve. Na segunda-feira, dia 11/05, no ato em frente à reitoria da Unesp, foi expressivo o deslocamento dos interiores à capital para composição do ato, somando mais de 800 estudantes somente da Unesp através do DCE.

Os cursos e campi que aderiram à greve na semana anterior organizaram grandes caravanas ao mesmo tempo que mantiveram localmente as atividades de greve, como Assis, Franca, Araraquara (FCLar), Bauru e São Paulo. Neste meio-tempo outras faculdades realizaram assembleias deliberando pela greve.

Dessa forma, temos o quadro geral da greve unificada na Unesp: oi

UNESP BOTUCATU: O campus de Botucatu realizará suas assembleias para adesão à greve nos dias 19/05 e 20/05. Ainda que não haja certeza sobre a adesão dos cursos, o debate que hoje faz necessária a assembleia e a adesão à greve dizem respeito à política de austeridade na universidade e na saúde, relacionando o projeto político imposto à classe trabalhadora de desmonte dos serviços públicos e precarização.

UNESP BAURU: Em Bauru, foi aprovado estado de greve na semana anterior, e atualmente os cursos vêm debatendo sua adesão. Neste momento temos 16 cursos aderidos de 20 totais. O debate caminha no sentido de aprovação da greve em todo o campus e a participação na Marcha rumo ao palácio dos bandeirantes.

UNESP MARÍLIA: Marília construiu uma Caravana mais expressiva para o ato do dia 11, em relação ao dia 4, demonstrando que o processo de mobilização vem ganhando maior adesão, aprofundando também o convencimento e coesão dos estudantes.

Assembleia dos estudantes de Marília no dia 14/05. Foto: Jornal O Futuro.

No dia 12/05 os estudantes se organizaram em ato na congregação do campus que recebia o Vice-Reitor da Unesp, Cesar. Nesse espaço as intervenções buscaram expor as contradições da política de uma Reitoria cúmplice da precarização da Universidade.

No dia 13 houveram assembleias de quase todos os cursos: Arquivologia, Biblioteconomia. Fisiologia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Relações Internacionais, Ciências Sociais e Filosofia. A maioria dos cursos aprovaram a adesão à greve por unanimidade ou contraste, com exceção dos cursos da saúde que responderam ao indicativo como uma votação de 65 favoráveis a 91 contrários e 19 abstenções.

No dia 14 ocorreu a assembleia geral que deliberou sobre a adesão total do campus à greve. Dessa forma, todos os cursos estão em greve e desde já paralisados.

UNESP RIO PRETO: Na Unesp de São José de Rio preto foi aprovado no dia 08/05 um indicativo de greve e adesão à paralisação dos docentes no dia 11/05, com os debates se concentrando na falta de infraestrutura do campus e a necessidade de adequação das estruturas, bem como das contratações. No dia 08/05 o IBILCE também sofreu um ataque repudiável da candidata a deputada estadual Estela Braga (PL). O ataque é mais uma expressão do avanço da direita contra a educação pública e a organização estudantil, em uma tentativa de intimidar e deslegitimar os estudantes grevistas. Nesse episódio, estudantes foram ameaçados, agredidos verbalmente e expostos nas redes sociais. A direção do campus ainda não se manifestou sobre o caso.

UNESP SOROCABA: Em Sorocaba, a assembleia que debaterá greve ocorre na terça-feira, dia 19.

UNESP PRESIDENTE PRUDENTE: No dia 12/05 foi realizada Assembleia geral do Campus de Presidente Prudente, na qual os estudantes aprovaram paralisação de dois dias, 14 e 15, com um cronograma de debates das pautas centrais da greve estadual, como orçamento, cotas trans e permanência. Uma nova assembleia geral está marcada para o dia 15/05 com possibilidade de aprovação de Estado de Greve.

No mesmo dia ocorreu assembleia de curso de Geografia onde foram debatidos os problemas específicos e estruturais do curso de Geografia, que se referem principalmente ao sucateamento da licenciatura, e o debate orçamentário, de contratação e permanência. Por fim, a assembleia aprovou estado de greve no curso de Geografia

UNESP ARARAQUARA: no começo da semana realizou uma paralisação na Faculdade de Ciências e Letras enquanto acontecia o ato em frente à reitoria da Unesp. Durante o dia, um pré-candidato a deputado Federal Hagara “Pão de Queijo” (AVANTE) invadiu restaurante universitário arrancando os cartazes feitos pelos estudantes, e logo em seguida tentou retirar os piquetes de um dos corredores até que fosse interceptado pelos estudantes, que fizeram cordão humano para impedi-lo. Apesar da postura pacífica dos estudantes, o pré-candidato partiu para cima dos estudantes, agredindo, empurrando e até mesmo enforcando um deles. Em unidade os estudantes conseguiram expulsá-lo do campus com palavras de ordem e fazendo corrente humana.

No dia seguinte, terça-feira (12/05), alguns estudantes participaram de uma sessão da Câmara Municipal para denunciar o ocorrido, e repudiar o apoio do Prefeito Dr. Lapena, que se manifestou em suas redes sociais comemorando o ataque. No espaço da tribuna popular, os vereadores da direita caluniaram os alunos, defenderam a ação violenta da polícia militar contra os estudantes e deslegitimaram o movimento estudantil.

Candidato a deputado Federal agride estudantes da Unesp de Araraquara. Foto: Jornal O Futuro

Mesmo diante da ofensiva da extrema direita contra a livre e justa manifestação dos estudantes, as assembleias de curso para adesão à greve estadual ocorreram normalmente e todos os cursos da Faculdade de Ciências e Letras e Faculdade de Ciências Farmacêuticas aprovaram e já estão em greve. No instituto de Química estão em estado de greve, e farão assembleias de curso para adesão na próxima quinta-feira, 21/05. Na Faculdade de Odontologia aprovaram a paralisação para adesão dos estudantes na Marcha rumo ao Palácio dos Bandeirantes no dia 20 de maio. Sendo assim, até o momento, dos 10 cursos da Unesp Araraquara, 7 já estão em greve

CAMPUS DE FRANCA: Franca deslocou no dia 11 cerca de 130 estudantes para o ato em São Paulo. Ao mesmo tempo, foram mantidas as atividades locais com confecção de cartazes colados pelo campus. No dia 12 foi realizada Assembleia de campus, na qual foram feitos os repasses sobre o ato, a mobilização local e o cronograma da greve. O debate em assembleia rumou para a evidenciação da grandeza do ato das estaduais, o engrandecimento do movimento grevista, a denúncia da violência policial contra a USP no dia 10, durante o ato e nos campis de Araraquara e Rio Preto, e por fim, a constatação da necessidade de aprofundamento da greve em resposta a essas ofensivas por parte do governo Tarcísio, das reitorias e da extrema-direita.

UNESP ASSIS: a greve em Assis foi aprovada em assembleia geral e nos campis na semana passada, e todos os cursos iniciaram as atividades grevistas no dia 11, com a ida expressiva dos estudantes de Assis para o ato frente ao CRUESP. Os estudantes trouxeram nas assembleias seguintes falas de indignação acerca da repressão policial, convencimento sobre a greve e organização da Marcha no dia 20.

UNESP SÃO PAULO: Em São Paulo, se mantém a ocupação no Instituto de Artes, e no dia 13/05 ocorreu a segunda mesa de negociação com a direção do campus. A negociação envolveu a participação de 6 discentes, 1 docente, 3 servidores e a Direção. Foi discutida a reposição de aulas, ainda que com a postura inflexível por parte de alguns professores. O termo proposto pelos estudantes e servidores não foi assinado pela direção, alegando receios judiciais. Solicitaram então que o documento fosse repensado para um compromisso não-judicial. O termo envolvia as reivindicações de contratação de bombeiros socorristas, contratação ideal de servidores concursados, garantia de não repressão aos estudantes e servidores grevistas, apoio da direção frente ao debate orçamental estadual, finalização da construção do campus, RU e moradia, entre outros.

A reitoria afirma não ter recebido nosso documento enquanto a diretora do campus afirma tê-lo enviado diretamente para a reitoria.

UNESP RIO CLARO: No dia 12/05, após o ato, o DCE construiu em Rio Claro uma assembleia com mais de 1000 estudantes, dos quais 80% foram favoráveis à greve. Dessa forma, a Unesp Rio Claro se encontra em Estado de Greve.

Por fim, vemos hoje na Unesp um processo expressivo de ampliação das lutas, e a adesão dos estudantes tanto em relação às reivindicações estaduais quanto às demandas locais. A articulação do DCE junto às bases tem sido essencial para demonstrar, a partir da conjuntura, a justeza do estado de greve das estaduais, a necessidade de aprofundamento do processo de mobilização, e efetivamente reorganizar o movimento estudantil, apontando que, a construção de uma greve vitoriosa é a única saída para a construção de uma contraofensiva ao projeto liberal de desmonte a privatização do ensino público.

Unicamp

Na Unicamp, 63 dos 67 cursos totais aderiram à greve dos estudantes. Junto a isso, a greve dos servidores segue tomando corpo e se massificando entre a categoria, construindo diversas atividades nas unidades. Na última terça-feira (12/05), foi realizado um ato unificado, organizado pelo STU, contra a proposta de reajuste de 3,47% do salário dos servidores e a autarquização do complexo de saúde da Unicamp. No dia, foi realizado um trancaço na entrada da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e após isso o ato ocorreu em frente à reitoria onde estava ocorrendo uma sessão extraordinária do Conselho Universitário (CONSU), onde foi aprovada a criação de novos cursos, como Relações Internacionais e um curso de Inteligência Artificial e Ciência de Dados. Além disso, foram aprovados os cursos de História no período noturno, Licenciatura em Teatro e uma habilitação em Letras Inglês.

A aprovação dos cursos de História no noturno e da licenciatura em Teatro, são frutos das demandas e mobilizações dos estudantes, pois levam em consideração o perfil dos estudantes do período noturno, composto majoritariamente por estudantes que conciliam os estudos com trabalho, sendo assim, uma forma de garantir a possibilidade de ingresso da classe trabalhadora na universidade. Porém, a aprovação de cursos como Relações Internacionais e Inteligência Artificial e Ciência de Dados na Faculdade de Tecnologia da Unicamp em Limeira, possui um caráter diferente. Esses cursos representam um projeto de precarização da Universidade, pois mesmo em um cenário de estrutura insuficiente para comportar a demanda atual, se insiste na expansão sem o acompanhamento real do orçamento e ampliação das políticas de permanência. A criação desses cursos vem acompanhada da construção de prédios e pela contratação de docentes, em um contexto em que muitos outros cursos já sofrem com a falta de estrutura e do devido quadro docente.

Vale ressaltar a presença dos alunos do Instituto de Artes reivindicando a aprovação da Licenciatura em Teatro e pela criação do Teatro Laboratório. A Licenciatura em Teatro é uma reivindicação que estava parada desde de 2019. Já o Teatro Laboratório estava há décadas sem avanços, fazendo com que os estudantes dos cursos de Artes Cênicas e Dança tenham suas aulas em locais inapropriados, com diversos casos de escorpiões e estudantes que se lesionaram gravemente. Essa foi uma das pautas da greve de 2023 que não foi conquistada com o fim da greve.

Ao passo em que a greve se expande e toma novas proporções, também aumentam os ataques diretos e a repressão contra o movimento grevista. É também nesse momento que os representantes da burguesia dão as caras para atacar a luta e organização dos estudantes. Desde os ataques, invasões e ameaças dos parlamentares da direita, até a violência e repressão direta da Polícia Militar a mando de Tarcísio de Freitas, o que vemos é a reação da burguesia em defesa de seu programa de universidade. Um programa baseado na exclusão da classe trabalhadora, na precarização, na privatização rumo ao fim da educação pública.

É importante ter claro que os estudantes apenas serão vitoriosos se tiverem clareza de que seus inimigos são aqueles que articulam um projeto que coloca a educação a favor do lucro da burguesia, e estão dispostos a barrar qualquer avanço rumo a uma universidade popular. Dessa forma, não apenas Tarcísio de Freitas, mas cada Reitoria que aceita a posição de colocar seu projeto de austeridade fiscal em prática. Não apenas a Polícia Militar e parlamentares de direita que invadem as universidades e agridem os estudantes, mas também as Reitorias e Direções que são coniventes com a violência.