Boletim sobre as greves estudantis no estado de São Paulo - Nº3
As condições de trabalho são cada vez piores, as políticas de permanência estudantil são insuficientes e na falta de orçamento para garantir o crescimento da universidade, as Reitorias fazem uma escolha bastante clara: arrocho salarial e precarização para garantir a expansão.
O aprofundamento da greve acontece ao mesmo tempo que existe uma negativa a qualquer forma de diálogo e negociação. A greve unificada dos estudantes das estaduais tem como um de seus pontos de apoio às Pautas Unificadas do Fórum das Seis, com a prioridade das reivindicações a respeito do auxílio permanente. Na última quinta-feira, dia 15/05, ocorreu uma nova mesa de negociação entre Fórum das Seis e CRUESP.
Desta vez, os Reitores estiveram presentes, o que não significa que houve qualquer debate real ou comprometimento com as reivindicações. Da perspectiva dos estudantes, a postura do CRUESP segue a de não negociar e se comprometer com avanços reais. Postas as reivindicações em relação a unificação dos auxílios, do fim das contrapartidas, do aumento da quantidade e do valor para um salário-mínimo paulista, a postura das Reitorias é uma nova reunião, dia 20/05, sem caráter deliberativo para acumular sobre as demandas.
Não podemos aceitar uma postura que coloca um falso debate técnico como impedimento para o debate político. Todos os Reitores e as devidas instâncias de gestão e administração institucional conhecem muito bem quais são as reivindicações dos estudantes e seus devidos impactos na universidade. A proposta de mais uma reunião técnica, para que então se possa pensar em possíveis comprometimentos é uma tentativa de cansar o movimento estudantil e desorganizar sua luta.
No que diz respeito às pautas dos servidores técnicos, administrativos e docentes a postura do CRUESP é a de não negociação. Frente às demandas de recomposição salarial e a contraproposta de 7,52% levada pelo Fórum das Seis, a postura do CRUESP é a de manter o índice de 3,47% e afirmar que de sua parte as negociações estão encerradas. A oferta de 3,47% significa para os trabalhadores das universidades estaduais perda salarial, pois esse índice não alcança nem mesmo a inflação.
O debate que é posto à mesa demonstra que, em um cenário de amplo crescimento da estrutura e da quantidade de estudantes das universidades estaduais paulista, sem o devido crescimento de seu financiamento, quem paga essa conta são os estudantes e os trabalhadores. As condições de trabalho são cada vez piores, as políticas de permanência estudantil são insuficientes e na falta de orçamento para garantir o crescimento da universidade, as Reitorias fazem uma escolha bastante clara: arrocho salarial e precarização para garantir a expansão.
A resposta de todos os setores é clara. Se o CRUESP não quer negociar, a única forma de reforçar suas reivindicações é com luta. É nesse intuito que o Fórum das Seis lançou para todas as suas categorias indicativo de greve, que deve ser avaliado pelas bases durante a segunda quinzena de maio.
Unesp
O cenário geral da Unesp é de construção das assembleias para adesão à greve nos campus e cursos em que ainda não aderiram, o mantimento dos calendários de greve nos campi já paralisados e mobilizações locais de preparação para a Marcha ao Palácio dos Bandeirantes no dia 20.
Os campi de Assis, Bauru, Franca, Rio Claro, Marília, Araraquara, São Paulo e Presidente Prudente se encontram em greve, integralmente paralisados.
Marília e Prudente foram os mais recentes na adesão à greve em assembleias que ocorreram nos dia 14 e 15 respectivamente.

Em Prudente já havia sido deliberada paralisação para os dias 14 e 15. As atividades da paralisação apresentaram grande fluxo de estudantes dispostos a compor o cronograma. Foi organizada então na sexta-feira a assembleia geral do campus com cerca de 200 estudantes com debate intenso sobre a adesão. A greve foi aprovada por contraste junto à ida para o ato do dia 20 e o encaminhamento para a eleição dos comandantes de greve.
Destacamos também nesse boletim, uma nova invasão da polícia militar à universidade na tentativa de intimidar o movimento grevista na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, em Bauru. A PM foi chamada no campus com intenção de assustar os estudantes presentes e deslegitimar a organização local. As entidades locais e o DCE exigem a responsabilização da reitoria e da direção do campus pelo incidente.
USP
Ao longo da última semana ocorreram diversas assembleias nos cursos da capital, com a maioria optando por seguir na greve. Os estudantes do Programa de Pós Graduação em Geografia Humana (PPGH) aderiram à greve nesta segunda-feira (11/05) em defesa da universidade e em solidariedade ao movimento estudantil. A continuação da greve na Escola Politécnica foi aprovada, junto de diversos encaminhamentos qualificando a atuação dos estudantes na continuidade da luta por seus direitos. A Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) aprovou continuidade da greve, e em um número de plenárias e assembleias ao longo da semana, coesionou as demandas específicas do instituto e fortaleceu a relação entre o comando de greve e as entidades do curso, exigindo ampliação dos horários de acesso de espaços como: academia, quadras, biblioteca e sala pró-aluno. A continuidade da greve no Instituto de Psicologia foi aprovada por unanimidade.
A principal tarefa dos estudantes tem sido o diálogo com os professores, desmentindo a narrativa falsa propagada pela reitoria de que os grevistas foram violentos e de que as demandas mudam o tempo todo, fortalecendo a relação entre discentes e docentes do instituto na luta por uma universidade pública de qualidade. A continuidade da greve foi aprovada no Instituto de Matemática e Estatística (IME). Houve um novo fôlego na atuação dos estudantes a partir da indignação diante da brutalidade da polícia militar de Tarcísio de Freitas, bem como dos adiamentos sucessivos de reuniões por parte da reitoria. A Congregação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), órgão consultivo e deliberativo superior dos estudantes, professores e trabalhadores, aprovou em sua última sessão no dia 13/05 uma série de declarações e propostas. Dentre elas, a retomada imediata de negociação entre os estudantes e a reitoria, apontando a legitimidade das reivindicações da greve e a importância de incluí-las na agenda política e financeira da universidade.
Além disso, foi apontada a necessidade de serem feitos esclarecimentos a respeito de todos os passos institucionais que levaram à violenta repressão policial na ocupação da reitoria, bem como da devolução do restante dos bens de estudantes que continuam detidos na 93ª delegacia de polícia. O tom geral da greve é de aproximação entre estudantes e professores, visto que a verdadeira política da reitoria para a Universidade de São Paulo se torna cada vez mais clara, a precarização, privatização e repressão dos movimentos que lutam por uma universidade popular.

USP SÃO CARLOS: No dia 14/05, foi deliberado em assembleia o fim da greve na USP de São Carlos. O CAASO esteve em greve desde o dia 23/04, com a paralisação total de todos os institutos. Ao longo da greve tivemos diversas atividades culturais nas primeiras semanas, além da manutenção cotidiana dos piquetes e o diálogo com os professores. Durante todo esse período, houveram um total de 5 assembleias, com excelentes quóruns que chegavam em média a 20% de todo o campus. Desde a primeira assembléia, os estudantes demonstraram profundo engajamento na luta, ainda que marcada também por uma oposição que se recusou a reconhecer a legitimidade da decisão democrática.
Apesar de compreender a necessidade de permanecer na luta estadual, o Comando de Greve decidiu que este era um momento estratégico para o fim da greve por 3 principais motivos:
- A abertura do diálogo com a Prefeitura do Campus para o atendimento das pautas locais: A Prefeitura do Campus, sentindo a pressão do movimento e do Catracaço, demonstrou proatividade inédita, abrindo Grupos de Trabalho (GTs) paritários para tratar do Bandejão, Transporte, Creche e Pós-Graduação, além de garantir a abertura quinzenal do Centro de Educação Física, Esportes e Recreação da USP-São Carlos (CEFER) aos sábados.
- O fim do prazo para o acordo local com as comissões de graduação que, condicionado ao fim da greve, reduziria a retaliação acadêmica dos alunos que aderiram à greve.
- Tivemos dificuldades específicas do Comando de Greve com a manutenção dos piquetes: Além da instrução da Pró Reitoria de Graduação (PrG) para que os professores fossem até a sala, tentassem ministrar a aula e contassem a presença, havia também instrução aos funcionários de despiquetarem as entradas e trancar as salas entre as aulas, a fim de evitar novos piquetes. Muitos professores adotaram uma postura truculenta em relação a piquetes sonoros, chamando a guarda local ou até a Polícia Militar, com o objetivo de intimidar os estudantes grevistas. Infelizmente a repressão foi forte o suficiente para enfraquecer o movimento através do cansaço.

Próximos passos
É nesse rumo que a greve unificada das estaduais tem como os próximos passos de sua luta a construção da Marcha Pelo Fora Tarcísio! Em defesa da educação, do serviço público, contra as privatizações e a violência policial no dia 20/05. As últimas mobilizações demonstraram que, na base de cada universidade, existe disposição de ir às ruas e fortalecer uma luta contra a precarização da educação.
Esse processo toma corpo ao passo em que os estudantes reconhecem que o mesmo projeto da burguesia que ataca a educação superior pública também é responsável pela privatização da Sabesp, pelo leilão e a militarização de escolas, a precarização das condições de trabalho dos professores da educação básica, e de forma geral, da deterioração das condições de vida da classe trabalhadora.
Ao mesmo tempo que a luta entende seu caráter mais amplo, em resposta ao projeto de austeridade e ataque à educação, é importante não perder de vista as reivindicações e negociações em cada universidade. São as reivindicações de cada universidade, e principalmente a perspectiva de arrancar vitórias que legitimem o movimento grevista e fortaleçam a mobilização dos estudantes.