Boletim sobre as greves estudantis no estado de São Paulo - Nº4
Greve das Universidades Estaduais fortalece a construção da Marcha do dia 20 de maio, enquanto movimento se aprofunda nas três categorias.
O movimento grevista demonstrou força e capacidade de pautar o debate público por meio da construção da Marcha Pelo Fora Tarcísio! Em defesa da educação, do serviço público, contra as privatizações e a violência policial. A Marcha, realizada no dia 20 de maio, contou com mais de 15.000 manifestantes que conduziram uma enorme manifestação desde o Largo da Batata até o Palácio dos Bandeirantes. No centro do debate, estudantes, servidores e professores colocaram as reivindicações que hoje conduzem a greve, denunciando o projeto de austeridade que ataca a educação pública.
O sucesso da mobilização é resultado de um movimento fortalecido desde as bases de cada categoria que hoje está em greve. A Marcha contou com a participação de estudantes, servidores e professores de Campinas, São Carlos, Araraquara, Franca, Assis, Marília, Presidente Prudente, São Vicente, Guaratinguetá, Bauru e Rio Claro. Essa grande adesão do interior demonstra coesão em um movimento capaz de pautar a luta em todo o estado de São Paulo.
Ao mesmo tempo, cada categoria responde ao indicativo de greve anunciado pelo Fórum das Seis após a completa negativa por parte das Reitorias na última negociação com o CRUESP. Professores e servidores da Unesp e USP passam a aderir à greve, que cada vez mais aponta para se tornar uma greve geral das universidades estaduais.

USP
Durante o protesto do dia 20 de maio, em que milhares de estudantes da USP se uniram aos estudantes das outras estaduais paulistas, se concretizou o momento de maior mobilização da greve estudantil na Universidade de São Paulo. Ao romper as barreiras midiáticas que separam o mundo universitário da realidade paulista, foi possível elevar a pauta, de forma física e discursiva, até a disputa pelo orçamento do estado de São Paulo.
Ao marcar o alvo da nossa mobilização como o palácio dos Bandeirantes e o governo neoliberal de Tarcísio de Freitas, essa mobilização demonstrou a capacidade organizativa dos estudantes em resposta à repressão policial dentro da universidade. Na madrugada do dia das mães, durante a reintegração de posse da reitoria da USP, realizada covardemente pela polícia militar, décadas de uma frágil autonomia universitária chegaram à um fim trágico.
Mesmo após amplo repúdio do corpo docente, que encarou embasbacado a fragilidade da democracia universitária, a reitoria negou qualquer responsabilidade e não repudiou o ataque. Esse evento foi capaz de elevar a consciência do corpo docente, que percebeu a profunda fragilidade dos seus próprios direitos democráticos, processo que impulsionou a elevação da tática aplicada às suas lutas para uma tática grevista, aprovada pela ADUSP no dia 25/05.
No entanto, mesmo após o esfacelamento da democracia universitária e confiança institucional, bem como a ampliação da luta das universidades paulistas à nível estadual, a Reitoria da USP se mantém, monolítica, irredutível e sem disposição de realmente reconhecer o debate com os estudantes.
As reuniões de negociação entre o corpo discente da USP e a reitoria foram retomadas em sucessivas reuniões no dia 22/05 e 25/05, acompanhadas dos mediadores externos.
Por parte dos estudantes, a reorganização de nossas pautas em torno da centralidade do auxílio PAPFE, vital para a permanência dos estudantes-trabalhadores na universidade, direcionou nossa atuação durante as negociações. Contudo, mesmo com ampla disposição do corpo discente para mediação e negociação das pautas, a reitoria se recusou sucessivamente, não apenas à negociar, mas sequer à apresentar contra propostas.
A reitoria perdeu qualquer sustentação na base docente, perdeu a capacidade de controlar o corpo discente, fez desmoronar a democracia universitária, e se provou contrária aos interesses de todo o corpo universitário. Até mesmo os mediadores deixaram as negociações devido a completa indisposição da reitoria em negociar, o que demonstra a fragilidade da condução deste processo, e a força da pressão do movimento estudantil. Enquanto o reitor Aluísio Segurado se esconde, os estudantes não recuam, e a ampla disposição ao combate pela disputa do orçamento da USP não apenas elevou a consciência dos nossos discentes, mas impulsiona a luta contra um projeto de educação neoliberal em todo o estado de São Paulo!
UNESP
A última semana da greve nos campi da Unesp teve como pauta central a participação dos estudantes na Marcha do dia 20 de maio. A partir da organização do DCE e da contribuição coletiva de diversos sindicatos, foi possível levar mais de 1.000 estudantes da Unesp para São Paulo. A grande adesão fez com que o bloco dos estudantes da Unesp fosse um dos maiores e mais expressivos em toda a Marcha.
A mobilização para a construção da Marcha foi fortalecida após as duas últimas manifestações realizadas em frente ao CRUESP, que evidenciaram o engajamento da base estudantil no calendário de lutas. Essa crescente expectativa se deve a diversos fatores, como a adesão de mais campi à greve; as articulações locais em cada curso; a necessidade de uma resposta estudantil diante da recusa de diálogo por parte do governo estadual e das Reitorias;
Ao mesmo tempo em que se organizava a Marcha na capital de São Paulo, os estudantes da Unesp de Bauru também realizaram uma grande manifestação frente ao local onde o governador, Tarcísio de Freitas, cumpria agenda de sua campanha como pré-candidato.
Os campi de Assis, Bauru, Franca, Rio Claro, Marília, Araraquara, São Paulo, Rio Preto e Presidente Prudente, que já se encontram em greve, foram os mais expressivos no bloco geral da Unesp. Esses campi atravessaram processos ainda mais profundos para a construção da greve, resultando diretamente em uma maior adesão dos estudantes.
Ainda, a partir do chamado indicativo de greve do Fórum das Seis, a greve da Unesp avança rumo à construção de uma greve geral de todos os setores. No que diz respeito aos professores, foi deliberado pela greve em: Marília, Rio Claro, Bauru, Araraquara, Rio Preto, Franca e Assis. Em relação aos servidores técnicos e administrativos, as localidades em greve são: Franca, Bauru, Marília e Rio Preto, enquanto Araraquara, Assis, Dracena, Rio Claro e Sorocaba se encontram em estado de greve.
Com base nas experiências recentes do movimento grevista das estaduais, bem como no aprofundamento do convencimento político da base dos três setores da Unesp, a expectativa é que Botucatu, São Vicente e Guaratinguetá sejam os próximos campi a aderir à greve.
UNICAMP
Na terça-feira, dia 19 de maio, foi realizada a primeira reunião com a reitoria, onde os delegados do comando de greve apresentaram as principais reivindicações dos estudantes para a reitoria. Ao longo de 4 horas, os representantes apresentaram as principais pautas da greve, como a construção da Moradia Estudantil no campus de Limeira, o fim da contrapartida da BAS, reformas de acessibilidade para PCDs e a expansão do SAVS, SAER e SAPPE. Além disso, foi realizada uma manifestação unificada de estudantes e trabalhadores do lado de fora da sala de reunião.
O a manifestação contou com a presença do STU e com a participação expressiva dos alunos do Instituto de Artes, que estão construindo um acampamento no campus de Barão Geraldo, no Ciclo Básico 2 (PB). No final da reunião, foi agendada outra reunião na quinta-feira da mesma semana, para a apresentação das cartas de reivindicações dos estudantes, e a primeira mesa de negociação foi marcada para o dia 27/05.
No dia 20/05, quarta-feira, estudantes e trabalhadores da Unicamp participaram da Marcha contra o governador Tarcísio de Freitas, em São Paulo. Mais de 400 alunos da Unicamp foram à Marcha para construir um bloco próprio da Universidade. No caminho para a Marcha, todos os ônibus da Unicamp foram parados na estrada pela polícia militar, numa tentativa de desmobilizar a construção da Marcha, atrasar a chegada dos ônibus na manifestação e ameaçar diretamente a movimentação dos estudantes. Apesar disso, os ônibus chegaram até a capital e se somaram para a construção da Marcha.
A greve geral segue se massificando e tomando forma em toda a Universidade. Alguns institutos e faculdades encontram suas primeiras dificuldades, principalmente no que diz respeito à participação da base dos estudantes. Esse é o momento de fortalecer e aprofundar a greve, sustentando a mobilização até que seja capaz de arrancar suas reivindicações. É crucial reforçar o processo de convencimento dos estudantes e construção de uma mobilização ativa e cotidiana a partir das atividades da greve.
Saldo geral
O saldo geral das mobilizações e de toda a construção da greve aponta para um enorme sucesso no que diz respeito à condução das lutas dentro da universidade e à capacidade deste setor de construir condições para lutas mais amplas.
A continuidade e aprofundamento da greve, com a grande adesão da base de cada categoria na construção da Marcha do dia 20 de maio, demonstra como a luta cotidiana e fundamentada em reivindicações reconhecidas é capaz de construir grandes mobilizações. Esse elemento dá ainda mais importância para a centralidade das reivindicações de cada categoria e à capacidade do movimento grevista de arrancar vitórias.
Ao mesmo tempo, a Marcha nos oferece uma lição sobre qual é o papel do movimento estudantil. Para além da construção das pautas exclusivas da universidade, é fundamental a demonstração de que os ataques à educação fazem parte de uma mesma ofensiva da burguesia contra a classe trabalhadora, que se expressa pelos cortes e privatizações da política de austeridade, mas também pelo ataque às condições de trabalho.
A Marcha do dia 20 de maio deve ser um primeiro passo de uma profunda luta independente, fundamentada nos interesses da classe trabalhadora, contra as reitorias e os governos que se colocam a serviço da burguesia.